quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mistérios do Horizonte

Por
Neith War e The Grey Knight, escrito de 26 de outubro de 2010 a 25 de janeiro de 2011

Houve um momento em que o desejo superou o medo, mas esse momento foi embora.  E ali, paralisado no meio da autoestrada, Dionísio se perguntava o que fazer.  Como não confundir aquele instante de paralisia com indecisão?  Mas, se havia um traço de personalidade que pouco habitava a alma de Dionísio, era a indecisão.  O que ele sentia, ali parado como se esperasse a chuva despencar sobre seu corpo e alma, era apreensão.  Ansiedade.  A apreensão do conhecimento.  Ele sabia, conhecia, e conhecendo, tinha poder.  Mas esse poder não lhe dava – ironicamente – o direito de fazer o que até há pouco estava desejando fazer.  Certamente, o arrependimento viria, tão certeiro quanto a flecha de um Cupido.

Longe dali, num barzinho super badalado, Lívia se divertia bebendo com as amigas. O som estava muito alto, um psy trance cheio de energia, os corpos movimentavam-se como um oceano de carne humana, alguns, alteradíssimos pelo uso de entorpecentes, dançavam freneticamente ao som alucinante.


Era a primeira vez de Lívia naquele bar, suas amigas haviam insistido para que fosse, achavam que ela precisava se distrair um pouco. Lívia olhou para o teto do barracão onde o bar era instalado, sentiu a cabeça girar, abaixou-se entre a multidão e com as cabeças entre as pernas, arrependeu-se de ter misturado a bebida com o alucinógeno oferecido por um rapaz que conheceu lá, nunca havia feito uso de drogas em sua vida, e agora sentia-se estúpida por estar tão mal. Abaixou ainda mais a cabeça e sentiu que ia vomitar, seu estômago doía absurdamente, com as mãos apertando a barriga levantou-se com dificuldade e foi em direção ao banheiro, as pessoas pareciam loucas dançando aquele som ensurdecedor, foi difícil passar entre elas sem levar cotoveladas e empurrões.


Quando chegou ao banheiro, ele estava vazio, suspirou aliviada por poder ficar um pouco sozinha. Molhou as mãos na água da pia e passou na testa, e com as mãos apoiadas na borda da pia, fitou seu rosto cansado. Apesar da maquiagem estar toda borrada ainda podia-se ver que Lívia era uma linda garota, algumas mechas cacheadas caíam suavemente em sua face, o contraste dos cabelos vermelhos na pele branca a deixava ainda mais sensual, seus olhos eram de um azul violeta e expressavam uma profunda tristeza por ter sido tão tola, devia ter ficado em casa. Suspirou resignada e mais uma vez molhou o rosto.  O banheiro era sujo e úmido e a fazia lembrar-se dos banheiros de filmes de terror, riu alto quando pensou nisso e falou para si mesma, “Lívia … você realmente está muy loka, amiga!”


Saiu do banheiro e foi direto para os enormes sofás dispostos ao redor da pista de dança, agradeceu mais uma vez por achar um local para se sentar, a maioria das pessoas ainda dançava freneticamente, não se cansavam de repetirem os mesmos passos música após música. Fechou os olhos por um instante, e então ouviu quando a música eletrônica deu lugar à uma outra música, Change, do Deftones, abriu os olhos assustada com a mudança brusca e teve uma grande surpresa: estava sozinha no imenso salão, esfregou as mãos nos olhos para ter certeza de que estava bem acordada, e quando olhou novamente ao redor, percebeu que o local todo estava coberto por um denso nevoeiro, as luzes coloriam de forma bruxuleante aquela névoa, a música parecia entrar em seu corpo. Lívia sentiu que seu coração iria explodir, tamanha era a força com que batia.Do meio da névoa surgiu um Vulto que caminhava lentamente em sua direção, sentiu a respiração falhar, estava horrorizada com aquela situação, o medo dominava sua mente, e então, encolhendo-se toda no canto, colocou as mãos no rosto e começou a gritar desesperadamente, sentiu que várias mãos tentavam controlá-la e tentava afastá-las gritando ainda mais alto, então ouviu a voz familiar, era Vanessa, com uma cara assustadíssima.


“Lívia??? O que houve??”


Lívia olhou meio sem saber o que dizer, a música psy irritante continuava a tocar normalmente e não havia névoa alguma, olhou meio atordoada para a amiga e disse, “Só me leve embora daqui, Vanessa...”

Milhares de vozes se calaram de uma só vez, mas a cabeça do Guardião do Poço continuava em silêncio, empalada numa lança erguida contra os céus de cor azul, quase negra.  Raios cruzaram os céus como veias elétricas e fugazes, mas o que restava do Guardião do Poço não se abalou nem disse nada, nenhum oráculo, nem súplica: só seu olhar que me trespassava mais que a lança que o matara.


Dionísio não tinha culpa dessa estranha sinalização, postada no centro de uma encruzilhada que encontrou andando pela rodovia sinuosa, ter sido morta há milhões de anos e ainda nutrir rancor contra quem lhe fizesse perguntas.


Deve ser a chatice do serviço, pensou Dionísio.


Olhou em redor e só enxergou as brumas escaldantes ficarem mais densas, quase ultrapassando os limites do meio-fio.  Não era coisa para qualquer um, andar pela estrada que se esconde por detrás do mundo, a pé, e ser tão efetivo como uma pessoa de carro pelas autoestradas do mundo material.


O próprio tempo era diferente ali, e era muito difícil entender coisas como pontos cardeais, referências espaciais e linhas retas.  O melhor era simplesmente relaxar, andar e esquecer todas essas noções, porque se elas se aplicavam ali, seus significados eram diferentes.


Dionísio suspirou e virou a cabeça para os três caminhos que partiam do poste do Guardião.  Parecia que este não iria cobrar pedágio, mas deveria cobrar caro por informações, só que saber isso não adiantava muita coisa, porque ele ficava mudo até que a oferenda correta fosse apresentada.


E Dionísio não tinha a menor ideia do que era correto.


Em mais de um sentido.


Mas ele tinha uma vantagem, justamente por causa disso: ele era um dos Vultos Vulpinos, um Vampiro Vagante, uma sombra de olhos faiscantes, vinda das profundas do Outro Lado, passada além do Portal do Paralelo para vestir a mente e o corpo de um ser humano que um dia se chamou Dionísio Autran.


Agora ele era só Dionísio, e tinha pressa, embora muita paciência.


A chuva começou a cair, primeiro fina e depois dando sinais que chegaria a uma torrente, ameaçando esmagar quem quer que estivesse exposto na encruzilhada.  Dionísio ignorou o olhar ríspido da cabeça de olhos brilhantes, e adiantou-se até um das saídas, e não aquela por onde veio.


As brumas reagiram à chuva e ao viajante, o estrondo nos céus ficou mais alto, e foi mudando, mudando de tom e ritmo, de forma quase senciente.  Dionísio deu mais alguns passos, e o véu da passagem acariciou o seu corpo, que o sentia como duas músicas distintas unidas num só caleidoscópio sonoro.


Ali, ele não conseguia enxergar o que vinha à frente, onde ia dar, mas sabia que poderia ser visto por alguém azarado (ou azarada, quem sabe …?) o suficiente para isso.  Bom, azar para os outros, sorte para ele.





Naquela noite Lívia não conseguiu dormir direito, só conseguiu se sentir mais segura quando o primeiro raio de sol atravessou a veneziana e por isso, depois de um demorado banho deitou-se confortavelmente em sua cama.


Sua cabeça ainda doía um pouco, aquela imagem bizarra não saía de sua mente, a música, a névoa. E foi com estas lembranças que seus olhos se fecharam lentamente e então, quando o sonho já chegava para descansá-la, sentiu afundar na cama e a sensação de sufoco a fez debater-se, como se estivesse presa numa areia movediça, tentava gritar mas a voz não saía, a visão estava embaçada e sentia um cheiro estranho no ar. Viu-se num rio de sangue escurecido, milhares de corpos cadavéricos boiando á sua volta, sentiu nojo, e desespero, tentou gritar mas sua voz agora ecoava num tom agudo como se fosse o pio de uma coruja; de repente uma mão ossuda segurou sua perna e a puxou para o fundo, tentava nadar para a superfície mas era inútil, a “coisa” a puxava cada vez mais fundo e os corpos de olhos esbugalhados batiam contra seu corpo desfazendo-se deixando rastros de vermes ao seu redor, sem que ela esperasse viu-se frente a frente com uma criatura horrível, algo assustador que era muito pior do que todos os demônios de que já ouvira falar.


Soltou um grito e engoliu muito sangue, perdeu os sentidos, e então num impulso quase que mecânico, seu corpo virou-se na cama e Lívia vomitou algo parecido com lodo e sangue; continuava desacordada, com o corpo pendendo de lado enquanto vários espectros se aglomeravam ao seu redor sibilando e rindo diabolicamente.


Já faziam 10 minutos que Vanessa batia na porta da casa de Lívia sem obter resposta. “O que será que está acontecendo … não deveria tê-la deixado sozinha.” Vanessa deu a volta na casa, e forçando a porta da cozinha, conseguiu entrar, sabia que aquela porta estava quebrada e que Lívia apenas encostava um mesa para mantê-la fechada.


Subiu as escadas que davam para o quarto e quando chegou lá teve uma terrível visão: Lívia estava caída ao lado da cama em seu próprio vômito. Correu até ela e sacudindo-a gritava para que acordasse, Lívia abriu os olhos com dificuldade, e mal consegui distinguir quem estava à sua frente, sentia-se fraca e zonza.


Vanessa imediatamente pegou o celular e chamou uma ambulância.


O espaço tremulou à frente, borbulhando distorcido como um aglomerado de formas rodopiantes.  Dionísio havia ultrapassando a encruzilhada.  Suspirou, não de alívio, mas de uma sensação inesperada de cansaço: que impressão estranha era aquela, de que algo estava faltando?  Era como se sua essência houvesse ido parar de novo no Sheol, no Xibalba, no Hades, qualquer que seja o nome que os mortais deem a esse lugar que não é lugar.


Com aquele estranho peso no peito, como se de uma perda terrível, a sombra que vestia o corpo de Dionísio Autran se achou olhando para o espelho de um banheiro feminino.  Felizmente, sua chegada não foi seguida por gritos agudos, nem por um spray de pimenta no rosto.  Ainda bem mesmo, assim seus olhos verde-esmeralda, que chamavam a atenção daqueles que cruzavam o seu caminho, não sofreriam nenhum dano … por temporário que esse dano fosse, qualquer irritação ou ferimento ainda eram dolorosos.


Conforme caminhava para fora do banheiro, aquela sensação de perda foi se refinando, e a nítida ideia de estar atrasado cruzou a mente do Vulto.  Estava numa boate, e já deveria ser dia, porque não havia ninguém dançando na pista, o chão estava cheio de panfletos, sujeira, e até uma camisinha usada, e ninguém estava à vista, exceto alguém que costuma ser quase invisível, de tão ignorado: a faxineira que com seu carrinho apanhava o lixo e limpava a bagunça da noite anterior.


A moça de traços comuns levantou a cabeça na direção de Dionísio – estava abaixada, catando o esfregão que caíra no chão – e não enxergou nada, embora sentisse um leve aroma de almíscar, inédito naquele ambiente fedendo a cigarro.


Sem esboçar seu sorriso usual, o Vulto caminhou discretamente, mas passando direto ao lado da servente, incólume.  Mas que sorte, pensou Dionísio.  Que coisa melhor para roubar, que o dom da invisibilidade?  Para aquela mulher, aquilo talvez fosse um fardo, mas para ele, um mito vivo, era de uma utilidade tremenda, e um efeito muito maior e mais efetivo, ali no mundo de carne.  E até um dos três marcos do sol – que ele imaginava ser o meio-dia, pelo jeito – aquela mulher atrairia todo tipo de atenção, desejada e indesejada.  Boa sorte para ela …


O Vulto Vulpino caminhou pelas ruas, sem ser notado pelos cidadãos comuns que perdiam seu tempo, rodando como aves que ciscam por aquela cidade labiríntica, onde morava uma menina, talvez uma moça, talvez uma mulher, talvez uma centelha a despertar para um horizonte novo e cheio de sombras e sangue, chamada Lívia.
Lívia abriu os olhos e ficou alguns instantes imóvel tentando colocar as ideias em ordem. Sua cabeça estava um turbilhão, imagens e lembranças misturavam-se à fantasias.

Olhou para o sofá ao lado da cama de hospital e viu Vanessa dormindo, levantou-se e vestiu sua roupa, que estava em uma cadeira ao lado, pegou a bolsa e saiu do quarto sem nem ao menos se despedir da amiga.

Algumas horas mais tarde, Vanessa acordou assustada com uma enfermeira que a chamava.

“Moça, acorde” a enfermeira cutucava Vanessa incessantemente.

“Hã? O que está havendo, onde esta Lívia?” Vanessa ficou apreensiva ao notar que a amiga não estava na cama.

“Ah, a moça que estava neste quarto já foi embora tem algumas horas. Desculpe incomodar, mas vamos precisar deste quarto.”

Vanessa pegou suas coisas e saiu pensativa. Como Lívia podia ser tão ingrata? Nem lhe agradeceu por ter passado a noite ali com ela.  Magoada, Vanessa foi direto para casa, estava decidida a deixar Lívia se virar sozinha dali por diante.

À noite os amigos combinaram de se encontrar novamente no bar à beira da estrada.  Vanessa já havia bebido bastante e se lamentava para a turma dizendo o quanto Lívia era falsa e ingrata, nem retornara suas ligações. Nesse ponto Laura interferiu:

“Mas, Van … pense bem, Lívia anda sob forte estresse, imagine só, como você se sentiria se fosse a principal suspeita da morte de seu namorado?

Caio segurou a mão de Vanessa e a beijou.  “Você tem feito o que pode por ela meu amor, mas realmente é uma situação complicada, você mesma viu como ela ficou naquele dia em que a convencemos a vir para cá.”

Tiago emendou, “Ela nem se arruma mais, antes estava sempre bem vestida e radiante. Deve estar muito deprimida.”

Vanessa concordou, e suspirando, ergueu o copo para brindarem o fato de estarem ali reunidos, mas os copos pararam no ar, como se alguém tivesse apertado o botão de pause de um aparelho de DVD, as bocas entreabertas e os olhares incrédulos na direção da porta de entrada. No mesmo instante, o DJ colocava a música The Spy do The Doors.

Na porta, Lívia estava parada acendendo um cigarro, usava uma saia curta de couro preta e justíssima, uma blusa tomara que caia vermelha, os cabelos soltos, uma maquiagem forte nos olhos e um batom vermelho que realçava seus lábios carnudos. As sandálias de salto fino davam um balanço serpenteante ao seu corpo bem definido, conforme andava parecia deslizar pelo salão, os homens estavam feito lobos, devorando-a com os olhos.

Lívia sequer olhou para a mesa onde estavam os amigos, parecia uma outra pessoa. Caminhou até o balcão e sentou-se em um banco cruzando as pernas bem torneadas. Não demorou muito para que um rapaz se aproximasse e lhe oferecesse uma bebida, que Lívia sorrindo e esbanjando charme logo aceitou.

Vanessa surtou e queria de qualquer forma ir até lá e saber o que estava acontecendo, mas Caio a impediu. Estavam todos chocados com a cena mas os meninos acharam melhor apenas observar Lívia para ver o que ela pretendia, mesmo porque ela parecia nem ter notado a presença deles ali.

Lívia trocava olhares com o desconhecido, seus gestos insinuantes estavam deixando-o louco.  “Como é o teu nome?” perguntou enquanto acariciava a mão de Lívia.

“E isso realmente importa?” a garota respondeu enquanto descruzava as pernas lentamente e cruzava novamente.

Aquele movimento pareceu hipnotizar o rapaz, ele a desejava de uma forma assustadora. Lívia percebeu e sorriu satisfeita, terminou a bebida e o pegou pela mão arrastando-o para o banheiro masculino. Ele a seguia feito um cachorrinho.

Vanessa que via toda a cena ficou horrorizada, quis ir atrás mas foi impedida por Laura.

No banheiro, Lívia entrou em um dos vários sanitários e abaixou a tampa fazendo com que o homem se sentasse. Beijou seus lábios e depois afastou-se sorrindo.

Podiam ouvir a música que acabava de começar, Angels and Drugs de Christian Death. Lívia começou a dançar sensualmente, as mãos do rapaz percorriam suas curvas, ele estava extremamente excitado. Ela tirou a calcinha e sentou-se no colo dele que já estava com a braguilha aberta.

A música estava muito alta, seus corpos em êxtase, loucos por prazer. O homem deslizou as mãos pelos seios de Lívias e abaixando a blusa vermelha começou a chupá-los alternadamente enquanto a penetrava, Lívia movia seu quadril de forma intensa no colo do rapaz, os gemidos se misturavam com as batidas da música. Estavam quase gozando, quando ela parou e olhou para ele de forma estranha, seus olhos brilharam num tom violeta e isso fez com que ele congelasse de medo.

Ela enfiou as unhas na barriga do rapaz e fez um imenso buraco, ele gritava de dor e desespero mas seus gritos eram abafados pelas gargalhadas de Lívia e a música alta da pista de dança.

Lívia levantou-se e ajeitou a saia e os cabelos. O rapaz continuava gritando com as mãos tentando estancar o sangramento, ficou desesperado ao perceber que suas vísceras saíam e tentava, desajeitado, colocá-las para dentro. Lívia retocou o batom vermelho e encostou-se na beira da pia, de onde podia assistir a cena enquanto acendia um cigarro.

Vanessa estava inquieta na mesa, Caio teve medo de que ela brigasse com Lívia, já que estava bêbada e por isso resolveu ir até o banheiro ver o que estava acontecendo. Ao entrar no banheiro, Caio viu Lívia com um sorriso diabólico nos lábios e um rapaz em um dos sanitários gritando feito louco com as mãos na barriga.

Caio correu até ele e o sacudia pelos ombros. “O que houve? Porque está gritando desse jeito, está ferido?”

O rapaz tirou as mãos da barriga e já ia dizendo algo, quando viu que não havia nada, nenhum corte, nenhum sangue, nada.

Olhou desesperado para Lívia, que se mantinha imóvel como se nada visse, então começou a gritar com ela.

“Bruxa maldita!! O que fez comigo? Seu demônio!” levantou-se tentando ir na direção da garota, mas Caio o segurou, Lívia jogou o cigarro no chão, e sem olhar para Caio, ajeitou mais uma vez os cabelos e saiu do banheiro
“Mistério” é uma palavra tão bela.

Inevitável não pensar nessa beleza, e no poder dessa palavra, ao vagar invisível pelas ruas da cidade onde vagara Kronos, o Maldito. Ele maculara tudo com seus rastros podres, pensava Dionísio. E ao mesmo tempo, o Mistério que envenenava o ar era tão belo, tão poderoso, tão intoxicante.


O Mistério no ar era como um fio de Ariadne, o vampiro parecia vagar a esmo, mas acabou entrando justamente onde deveria. Justo a tempo de não se encontrar com Lívia, mas a tempo de entrar num lugar terrível, na hora exata. Um hospital da periferia, desgraça institucionalizada, o caos imperava pelos corredores, e um vampiro invisível era algo tão adequado, que todos chegavam até mesmo a se desviar de Dionísio, para não se esbarrar nele. Inconscientemente. Aquela sincronicidade que move os humanos sem que eles percebam.

Lá fora o sol quase alcançava o zênite, quando Dionísio entrou, ainda sem ser visto, num vestíbulo da Unidade de Tratamento Intensivo. Duas pessoas pareciam velar uma moça acidentada, uma delas sentada numa cadeira encostada à parede, a outra também encostada na parede, mas em pé. A primeira era uma mulher digitando lentamente num laptop, os cabelos curtos num penteado excitante, os ombros nus cheios de pequenos cabelos cortados. A segunda era um homem alto, mas não muito, moreno e jovem. A mulher parecia ignorar a presença do vampiro, até que ergueu os olhos, que brilharam numa cor púrpura estranha, e voltou a baixá-los para a tela do computador.


O homem foi menos discreto e segurou o braço de Dionísio com uma força medonha, seus olhos faiscaram azuis, cheios de uma cólera celestial, e por um segundo o aperto foi tremendo, mas o homem percebeu os próprios olhos verde-esmeralda do vampiro e acalmou a pressão no braço do vampiro, mas não o soltou.

“Você é Dionísio.” era uma pergunta e ao mesmo tempo uma declaração.

“Você é Belial.” era uma zombaria e ao mesmo tempo um reconhecimento formal.

Ambos sabiam que aqueles nomes eram temporários, era sempre assim para todos de sua espécie … menos para Kronos, o Maldito. Dionísio se virou para a mulher sentada e repetiu o protocolo: “Você é Astarte.” A moça levantou a cabeça apenas o suficiente para responder: “Não, seu idiota. Meu nome é Belin.”

Dionísio riu baixo, virou-se para o outro vampiro e pediu, “Dá pra me soltar? Tem alguma coisa em você que está me incomodando.” Belial também riu, um pouco mais alto, e respondeu “Tudo nessa cidade deveria estar te incomodando, mas você é esperto o suficiente para não mexer comigo. E então, quais são os seus negócios nesses tempos estranhos?”

“Procuro uma presa,” respondeu o Vulto de olhos esmeralda, estampando um sorriso cínico. “Não estou conseguindo, me perdi pela cidade, isso nunca me aconteceu antes. Não sei por quê vim parar aqui, é uma vergonha.”

“Então pode esquecer,” falou o Vulto de olhos azul-cobalto, largando o braço de Dionísio. “Todas as presas que poderiam lhe servir devem ter sido tomadas pela passagem de Kronos, como esta meni ...” Um grito de fúria e dor ecoou pela UTI, saindo das gargantas dos quatro naquele vestíbulo apertado, incluindo a menina hospitalizada. Sons, cheiros e um vislumbre macabro tomaram a mente deles: uma explosão, poças de óleo numa pista de carros, um homem andando por um matagal, o mesmo homem cavando um buraco na lama, um carro largado na pista, dor, o desejo de esquecimento, prazer, sono.

Uma enfermeira puxou as cortinas do vestíbulo, assustada, mas Belin, a primeira a se recuperar do choque, virou-se para ela e disse numa voz firme e calma: “Volte para ao que estava fazendo antes, nos deixe em paz aqui e diga às suas colegas que tudo foi resolvido.”

“Essa cena aconteceu ontem ou vai acontecer hoje à noite? ...” a voz trêmula de Dionísio soou baixinho. “Com Kronos, nunca se sabe” respondeu Belial. “Pelo menos ele vai dormir por um bom tempo agora.  Eu quase diria, coitado dele, mas é melhor não te dar mais detalhes, é sempre bom te ver ardendo de curiosidade.”

O olhar de Dionísio ficou meio desesperado: “Não faça isso comigo. Nós somos ladrões de segredos. Eu não quero lutar com você. Por favor.” Belial esperava impassível alguma reação, enquanto Belin balançava a cabeça em desprezo. O rosto de Dionísio mostrava algumas gotas de suor, escorrendo trêmulas. Lá fora, o meio-dia chegava, e uma mão diminuta, mas de garras afiadas, segurou o braço de Dionísio, no mesmo lugar onde Belial agarrara, pouco antes.

O rosto desfigurado da menina até pouco antes desacordada se contorceu num esgar de raiva, seus olhos se fixaram no vampiro hesitante e uma voz discordante saiu dos lábios finos: “Você é Dionísio. Eu sou Ananke, filha de Nemesyn.” A apreensão e ansiedade de Dionísio quase chegaram ao nível de pânico. A garota deitada ao seu lado era um Prematuro. Um horror ancestral que, mesmo sendo Vulto, devorava outros Vultos.


O casal de vampiros recuou um passo da cama, e a menina suicida que agora se dizia chamar Ananke recitou um cântico, uma história antiga declamada por Nemesyn, a primeira de todos os Vultos Vulpinos. O medo no coração inquieto de Dionísio foi se dissipando. Quando terminou o poema, a menina deformada tinha estranhas penas afiadas saindo de suas feridas, que não pareciam mais feridas e sim minúsculas bocas. Ela era um monstro muito mais chamativo que qualquer outro de sua espécie, era o que Dionísio sabia; sabia que beberia sangue não por prazer e divertimento, como gostavam de fazer todos os Vultos, mas por necessidade, um desejo quase sexual, tão grande quanto a necessidade dos outros Vultos de devorar segredos e emoções alheias … vontade que Ananke também imporia aos mortais, como qualquer outro vampiro. Ela era um monstro e era maravilhosa, Dionísio e os outros dois sentiam algo próximo do amor, que logo se desfez, quando ela falou numa voz mais composta: “Como há séculos, somos uma ninhada mais uma vez. Ele nos despertou e ele pagará por isso. Vá, corra agora, perca suas esperanças pelas ruas sem fim da cidade, pequeno Dionísio, e vai encontrá-las nas formas belas e cruéis de sua Lívia. Vá agora … AGORA!”
Havia uma sensação de perda no ar quando Dionísio saiu do quarto, era como andar novamente pelas vielas do paralelo, não tinha mais noção de tempo e espaço, de alguma forma, havia uma força oculta e forte que o guiava naquela dimensão sombria.

À sua frente um emaranhado de escadarias que subiam e desciam, uma densa névoa pairava naquele lugar, estava ficando cada vez mais confuso. “Mas que diabos!...” Dionísio mal acabou de pronunciar as palavras e foi sugado por um redemoinho saindo novamente no banheiro daquele bar de estrada.

Com as mãos trêmulas apoiadas na pia ele aos poucos foi recuperando o equilíbrio, olhou para o espelho e viu sua imagem borrada, logo acima um letreiro em Neon piscava, algumas luzes estavam queimadas, ele apertou os olhos para tentar firmar a visão e ler, aos poucos as letras foram ficando nítidas e então uma frase” Bar RAVEN LAKE” , esse nome soou estranho e familiar dentro de sua cabeça mas então percebeu as luzes queimadas e leu novamente “Bar Craven Clarke”

“Estranho …” Sua voz soou com um misto de dúvida e curiosidade.

O som que vinha da pista de dança do bar estava alto e agitado, o que significava que era noite, e por algum motivo ele sentia que estava prestes a encontrar o seu destino. Dois caras bêbados entraram no banheiro gargalhando, mas nem notaram Dionísio, falavam muito e riam demais. Dionísio manteve-se imóvel próximo à pia, sabia que eles não poderiam vê-lo, mas algo aconteceu, um dos rapazes esbarrou em Dionísio e logo depois dirigiu à ele um palavrão, o outro riu e comentou:

“Ih, esse cara aí deve estar muito louco, olha só os olhos dele …”

Saíram rindo do banheiro, Dionísio, ainda incrédulo, olhou seus olhos no espelho, o verde havia se transformado num vermelho vibrante, talvez fosse o contato direto com aquela película paralela na qual se encontrava. Respirou fundo e saiu do banheiro, a multidão e o som alto o deixava enraivecido, odiava aquela aglomeração humana nojenta, mas precisava encontrá-la, precisava de Lívia.

* * *

Quando Lívia saiu do banheiro, Caio correu atrás dela mas não conseguiu alcançá-la, viu quando Vanessa do outro lado do salão levantou-se com as mãos na cintura, apontando para o meio da pista de dança. Lívia dançava sensualmente ao som de Killing Moon, do Echo & The Bunnymen , Caio correu até a mesa onde estavam os amigos.

“E agora pessoal? O que vamos fazer?”

Nesse instante Dionísio viu Lívia, uma sensação de estranho conforto o invadiu, foi caminhando lentamente até ela, olhos fixos nas curvas marcantes do corpo da garota, quando chegou ao seu lado a música acabou, Lívia se virou e então os olhos dos dois se cruzaram, neste instante começava a tocar Mad World, de Gary Jules & Michael Andrews, o que indicava um pequeno intervalo para que as pessoas ali pudessem recuperar suas energias para a próxima seleção dançante, mas Lívia e Dionísio permaneceram na pista, olhos nos olhos, nenhum movimento brusco, foi Lívia quem quebrou o silêncio.

“Estava esperando por você...”

Dionísio sorriu, pegou-a pela cintura e então com seus corpos grudados dançaram,era como se nada mais ali existisse.

Vanessa estava fora de si juntou suas coisas e correu para tirar Lívia de lá antes que fizesse algo do qual se arrependesse, ela sabia que havia algo de muito errado, só não sabia o que era.

Dionísio aproximou seus lábios dos de Lívia, que fechou os olhos numa demonstração de entrega, ele a apertou forte em seus braços e a beijou profundamente, mas não era um beijo comum, ele estava sugando sua vida, um breve sorriso se fez nos lábios da garota, então seus braços penderam soltos ao lado do corpo, a cabeça lentamente caiu para trás e Dionísio a colocou no chão de forma delicada, acariciou seu rosto uma ultima vez.

“Obrigado, minha pequena.”

Enquanto Vanessa e os amigos corriam na direção dos dois depois do que viram, Dionísio saiu andando pela porta, lá fora encontrou um casal que acabava de chegar num carro preto esportivo, chegou bem próximo ao rapaz e ao olhar fundo em seus olhos ele lhe entregou as chaves, Dionísio entrou e preparava-se para partir quando Caio e Tiago apareceram na porta, correram até Dionísio gritando.

“Maldito assassino! Nós vamos te pegar.”

Dionísio acelerou e entrou na pista, Caio e Tiago pegaram o carro e começaram a persegui-lo, estavam muito rápidos, de vez em quando precisavam frear bruscamente por causa de algum carro que vinha na pista contrária, logo à frente, numa curva fechada, um caminhão que vinha na outra pista não conseguiu frear a tempo, o carro em que Caio e Tiago estavam rodopiou várias vezes, batendo na traseira do carro de Dionísio, que foi jogado contra uma árvore, logo em seguida o outro carro também bateu na mesma árvore e uma enorme explosão iluminou toda aquela área, na pista o caminhão tombava se arrastando por vários metros, deixando uma imensa mancha de óleo.

Dionísio saiu do meio das chamas, sua pele levemente queimada, andou alguns metros no matagal e então encontrou uma enorme poça de lama onde cavou e satisfeito por ter conseguido o que queria, se enterrou profundamente, fechou os olhos num misto de dor e prazer, era hora de descansar, havia muito o que fazer ainda naquela cidade.

Belin e Belial estavam parados a poucos metros de onde o acidente havia acontecido, ela olhou para Belial num tom meio desconfiado.

“Você acha que ele percebeu algo?”

“Não creio. Mas só teremos certeza quando chegar a hora certa.”

Belin abraçou-se à Belial, sentia-se protegida junto dele, mas tinha medo do que ele era capaz para ter o que queria.

As duas sombras Vulpinas sumiram em meio a uma densa neblina.
FIM
Trechos deste conto na fonte GEORGIA foram escritos por Neith War
Trechos deste conto na fonte ARIAL foram escritos por The Grey Knight (Arthur Ferreira Jr.'.)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O PRINCÍPIO DAS SOMBRAS

Por Neith War e The Grey Knight

Nada naquela cidade parecia real, com seus prédios antigos e suas casas rústicas, os habitantes sentiam-se dentro de um filme antigo. A casa de Belin não era diferente, um sobrado com detalhes de flores e ramos por toda a lateral, as grades das enormes janelas faziam desenhos sinuosos que as deixavam ainda mais bonitas. Do alpendre podia-se ver toda uma vasta floresta que sumia no horizonte.

Belin era uma garota de 23 anos, alta de longos cabelos lisos e pretos, vivia sozinha desde os 17 quando perdeu seus pais, gostava de estudar sobre magia e ocultismo e sentia grande afinidade com os animais, mas não era chegada a fazer amizade com as pessoas da cidade.

Sentada na varanda da casa, Belin fazia algumas anotações em seu diário de sonhos, sabia que era importante anotar, e sentia que algo estava para acontecer, o sonho da noite passada havia sido assustador, não entendia o porquê, mas tinha a sensação de que estava sendo vigiada há algum tempo, e isso a incomodava demais.

Caminhando devagar, uma figura se aproximava à distância. Contornava com passos firmes e prudentes a orla da floresta escura próxima à casa de Belin, e os olhos da moça se ergueram de seu diário para tentar identificar quem era que se aproximava: mais um dos seus vizinhos que tentava puxar alguma conversa, sem motivo algum?

Pelo menos dois haviam tentado, nos últimos sete dias. Só que não era o caso: um moço de barba negra, cuidadosamente aparada, óculos pendurados na testa, olhos azul-escuros, se aproximava. Belin não se lembrava de ter visto alguém assim na cidade, nem se parecia com o tipo de homem que vivia naquela cidadezinha: roupas como as de alguém que fosse para a balada numa cidade grande, calça muito negra, camisa vermelha aberta até a metade do peito. Um grande medalhão metálico, de uma cor aparentada ao azul-cobalto, mas ainda mais escura.

E trazia uma sacola na mão, dela tirando algo, ou pelo menos fazendo menção disso. Belin se levantou no alpendre da casa, e o estranho sorriu, a exatos quarenta passos de distância.

Seu coração batia descompassadamente, a respiração estava forte e ofegante, tinha vontade de correr para dentro de casa mas suas pernas não obedeciam. Não conseguia parar de encará-lo, era como se aqueles olhos azuis a tivesse hipnotizado. Um sentimento de pânico tomou conta de sua alma quando de repente uma sombra desajeitada parou bem à sua frente.

– Ei, que cara é essa, viu um fantasma? – André, o intrometido, era assim que Belin chamava aquele chato de 24 anos que parecia não se cansar de chateá-la com sua presença, o vizinho mais insuportável que já tivera, intrometido e sem noção.

Desviou o olhar tentando enxergar o homem que antes via, mas nada viu, simplesmente havia desaparecido: alívio e desapontamento eram os sentimentos que lutavam dentro dela naquele instante. Talvez quisesse a aproximação com o desconhecido, mas agora parecia mais com uma visão criada por sua mente cansada já que não dormira direito na noite anterior.

– O que faz aqui, André? Já não te disse para não invadir meu espaço desta forma? – Belin disse isso enquanto juntava suas coisas e entrava na cozinha.

– Me desculpe, gata, mas é que como você nunca aceita meus convites para sair, sou obrigado a vir aqui, para que você tenha a oportunidade de desfrutar de minha adorável presença – sentou-se numa, cadeira sorrindo.

– Que idiota … – pensou Belin.

– Pois deveria dar a honra a outras garotas que realmente estejam afim – Belin estava cansada, não conseguia parar de pensar no "estranho" rapaz que vira. Pegou uma chaleira e colocou água para ferver.

– Cuidado com o que diz, gatinha, você pode acabar me cansando e me perder, existem muitas garotas que gostariam de ter a sua sorte – André se aproximou e tentou abraçar Belin, que o afastou asperamente.

– Melhor você ir embora, não estou afim de conversar, saia já de minha casa ou … – disse enquanto abria a porta para que André saísse.

– Ou o quê? Olha garota, só vou embora porque tenho um encontro, mas amanhã volto para conversarmos direito – disse isso enquanto saía pela porta.

– Inacreditável … – sussurrou Belin.

Enquanto André se afastava a garota trancou bem a porta a fim de não ter surpresas, afinal podia-se esperar tudo daquele imbecil do André.

A chaleira apitou, e Belin colocou a água fervente numa xícara que já esperava com o sachê de erva cidreira dentro, adoçou e subiu as escadas indo direto para o banheiro. Da janela do cômodo podia-se ver perfeitamente o pôr do sol: quando seus raios passavam pela veneziana formavam um arco-íris na parede que deixava o lugar com cara de mágico, encheu a banheira e enquanto tomava alguns goles de chá foi despindo-se.

O homem não saía de sua mente, tinha certeza de que não era alucinação. O que ele teria feito? O que ele queria dela? Seria um ladrão? Não, definitivamente não podia ser.

Entrou na água morna e encostou a cabeça na borda da banheira onde colocou uma toalha para ficar mais macio. Fechou os olhos, sua respiração estava cada vez mais profunda e pausada, o sol já havia se posto de vez e um ventinho frio soprava vindo da floresta e trazendo um delicioso aroma de eucaliptos. Já estava quase dormindo, gostava de relaxar no banho, era a única hora em que realmente podia descansar de verdade, antes de partir em viagem ao mundo dos sonhos sussurrou para si mesma:

– Aqueles olhos

Enquanto subia as escadas, uma sombra se esgueirava pela parte de trás da casa. A
conversa da garota Belin, pensava a sombra, havia lhe interessado. Como ela conseguira lhe enxergar mais cedo, enquanto rodeava a orla da antiga floresta, também era outra coisa que fez a sombra pensar se, mesmo tendo fugido para aquele fim de mundo, havia alguém que se parecesse com ele, a sombra.

A aproximação do rapaz lhe havia dado a distração necessária para impor sua vontade e sumir do campo de visão da moça. E agora o sombra era só uma sombra mesmo, parcamente visível enquanto penetrava pelas frestas da casa e se aproximava do banheiro onde Belin começava a adormecer...

Dois olhos azuis brilharam na forma sombria, e algo parecido com um sorriso escarlate se desenhou em sua forma vagamente humana.

Belin havia dado uma forma humana a ele, sombra. Ele só podia imaginar que essa forma havia sido tirada dos sonhos dela, e onde mais procurar saber mais sobre a moça, senão nos sonhos dela? Assim que a menina, nua e quase totalmente imersa na banheira, começou a ressonar, suavemente, com ainda mais suavidade, mas uma firmeza incomum, a sombra penetrou nos sonhos de Belin

Belin encontrava-se no mundo dos sonhos, coberta pela escuridão do cenário que conhecia tão bem. Andava apressada pelas ruas úmidas daquela cidade em ruínas, de vez em quando escutava um grito vindo de algum canto sombrio.

Seguia com passos apressados com medo de estar sendo seguida ou vigiada, ao chegar perto de grandes portões de ferro que davam entrada à uma imensa mansão que mais parecia uma cripta, Belin parou para descansar, olhou sua mãos e percebeu que estavam quase transparentes, murmurou:

– Oh não...não vai dar tempo...

Empurrou com grande dificuldade os imensos portões, e adentrou o gigantesco jardim de flores mortas que tomava toda a frente da mansão. Chegando a porta parou novamente para tomar fôlego, ao olhar para a escura rua percebeu um vulto que a seguia.

Sentiu um gelo no estômago e imediatamente empurrou a porta e entrou. Móveis antigos e empoeirados, quadros estranhos e grossas cortinas deixavam o lugar escuro e com cheiro de mofo.

Subiu correndo as escadas quando percebeu que a porta da frente se abria, correu o mais rápido que pôde e entrou num dos enormes quartos, trancou a porta encostando um pesado criado mudo e se aproximou de um imenso espelho oval que estava próximo à janela coberto por um pano preto.

Barulhos nas escadas fizeram com que seu coração disparasse, tirou o pano e notou que estava ainda mais transparente do que antes.

– Faça dar tempo desta vez … por favor – disse isso enquanto segurava um amuleto que trazia no pescoço.

Uma luz se ascendeu na memória e tudo ao seu redor começou a mudar, alguém forçava a maçaneta tentando empurrar o móvel que segurava a porta, sentiu um gelo no estômago e um sufoco, um clarão e tudo ficou negro como a noite.

Belin se agitou na banheira e acordou assustada quase se afogando, respiração ofegante, tossia muito, estava com medo, poderia ter morrido. Levantou-se rapidamente e saiu do banheiro indo direto para o quarto, trocou-se e ficou encolhida na cama enquanto a cena não parava de se repetir em sua cabeça, apenas uma pergunta sem resposta:

– Quem poderia ter me seguido? Quem saberia deste lugar?

Dormiu sentindo um aperto no coração

Era uma presença palpável no vácuo, um paradoxo em forma de sombra. Ele era desejo e negação numa só … coisa. Ser. Ou quase um ser, porque estava muito próximo do não-ser.

Só que Belin o havia trazido mais próximo do ser.

E ele estava adorando.

Alguma coisa na moça era similar a ele, não era como se ela fosse uma presa habitual. Era mais como se ela fosse um exemplar de sua raça; mas como, se vivia no mundo da carne? Cada vez mais próximo de uma consistência que Belin chamaria de real, a
sombra decidiu dar um nome a si mesmo. A partir daquele momento, em que a menina se encolhia na cama, tremendo, ele se chamaria Belial.

Era um nome largado nas memórias da menina que começava a ressonar. Não tinha importância seu significado, ou qualquer que fosse o contato ou relevância do nome Belial para Belin. Ele só achou o nome solto nas memórias, avaliou ser parecido
com o nome que a moça dizia ter, e, baseado em seus próprios sentimentos que borbulhavam como uma poça de óleo fervente, decidiu-se num instante.

Belial então aproximou-se mais de Belin. Era estranho: a menina ressonava, e ele sentia a própria respiração ao chegar mais perto dela. O caso é que nunca havia
respirado de fato antes. De alguma forma obscura, Belin havia lhe dado a própria respiração. Talvez por isto estivesse meio sem fôlego agora. Refletindo um pouco, Belial achou que isso significava estar mais próximo de estar vivo.

E, consequentemente, mais fraco.

Era uma bela cama de casal e Belial se sentou ao lado de Belin. Percebeu que seu corpo era agora idêntico ao que Belin devia ter enxergado, na estrada próxima da casa. O quão palpável seria sua própria carne, agora?

Bom, não custava tentar... e tentar era o que Belial tinha feito na maior parte dos milênios que ele achava ter existido

Abriu os olhos e sentiu um desconforto ao perceber que pela janela escancarada um sol ardente entrava atingindo-a em cheio.

Belin se levantou resmungando, odiava quando esquecia de fechar as cortinas antes de dormir, a claridade da manhã a incomodava mais do que qualquer coisa que conhecia. Foi até o banheiro e lavou o rosto dando uma boa olhada na vermelhidão de seus olhos, isso sempre acontecia quando eram expostos à claridade imediata do sol. Colocou um vestido azul de verão e depois de pentear-se desceu as escadas pensativa, sabia que alguém a havia seguido quando esteve em Raven Lake, a cidade dos sonhos, e de certa forma sentia que poderia ser o mesmo homem que viu na tarde anterior.

Abriu a porta que dava acesso à varanda e espreguiçou-se sentindo o aroma delicado das flores de seu jardim, foi interrompida por um grunhido que a deixou de mau humor na hora.

– Bommm diaaaa gatinha!!

Era André que se aproximava com aquele ar petulante que Belin odiava. Respondeu com má vontade.

– Bom dia … – sentou-se na cadeira e fechou os olhos procurando dentro de sua mente, no meio das lembranças, o rosto do misterioso homem.

– Ihhh, já vi que está de mau humor, o que foi? Está chateada por ontem eu não ter ficado aqui com você?

A pergunta de André foi tão natural que Belin não conseguiu segurar uma gargalhada; que André detestou, por sinal.

– Olha Belin, você pode me considerar um idiota e rir de minha cara, mas saiba que você já está passando da idade e logo vai ficar para titia; afinal pelo que sei você não tem muitos pretendentes, vai ficar sozinha e morrer sozinha e vai se arrepender de me esnobar desta forma.

Belin abriu os olhos e ficou a fitar a floresta no horizonte, sentiu saudades de seus pais, pensou na forma idiota como haviam morrido, acidente de carro...e tudo por culpa de um motorista bêbado. Desde então estava mesmo sozinha, não tinha irmãos, não tinha amigos, não tinha nada, somente André que volta e meia aparecia para provocá-la. Sabia que ele também não tinha tantos encontros como dizia, a mãe dele era uma louca que o tratava como a um bebê, ontem quando ele disse que tinha de ir embora porque teria um encontro Belin sabia muito bem que era porque a mãe de André gostava de assistir a série de TV sentada junto do filho, Dona Eleonora era uma viúva bonita mas dependente do filho, nesse ponto Belin sabia que André era um bom rapaz, nunca deixava a mãe sozinha por muito tempo e era sempre carinhoso com ela, nesse ponto dos pensamentos Belin sorriu e segurou a mão de André.

André espantou-se com a iniciativa de Belin mas ficou calado para não estragar o momento.

Os pensamentos cessaram, Belin mantinha os olhos no horizonte, cenas estranhas passavam diante de seus olhos como se as vissem em um telão, via uma sombra que se aproximava com extrema rapidez, não conseguia se mexer, o corpo estava enrijecido, sem se dar conta começara a apertar com força a mão de André que preocupou-se e chamava pela garota que nada ouvia, estava num outro plano, a sombra bestial se aproximava cada vez mais, Belin cravara as unhas na mãos de André que desesperado chacoalhava a menina pelos ombros, finalmente a sombra chegou bem perto e com seus olhos azuis faiscando sussurrou seu nome "Belial...", que a garota recebeu com um impacto tão forte que quase desmaiou.

Acordou do transe gritando por Belial, seus olhos cintilaram e mudaram para uma cor púrpura voltando ao normal logo depois. Viu a cara de pavor de André que preocupado tentava entender o que estava acontecendo. Belin viu a mão do rapaz sangrando e se sentiu péssima por isso.

– André...me desculpe, eu...

– Ei, gata, não importa, o que houve com você? – o rapaz disfarçava o espanto de ter visto os olhos de Belin transformarem-se.

– Não sei … – Belin parecia se perder novamente em seus pensamentos.

– Acho melhor você entrar, e deitar um pouco, gatinha.

– É … talvez …

– Venha.

André levou a garota até o quarto, deitou-a na cama e fechou as cortinas para que o quarto ficasse na penumbra.

– Eu vou até em casa dar um jeito em minha mão; mas volto logo para ver como você está.

Belin não respondeu, André saiu e então a casa toda pareceu mergulhar numa profunda escuridão. Ao longe negras nuvens anunciavam um temporal, o vento aumentava fazendo com que as janelas produzissem um som fantasmagórico.

Do canto do quarto Belin viu surgir um vulto que se aproximava de sua cama, seu coração disparou, mas não era medo, um sentimento de reencontro, murmurou:

– Belial …

A sombra abraçou Belin e juntos atravessaram os portais do paralelo.


André deixou a porta do quarto de Belin entreaberta, e saiu apressado na direção da rua. Um trovão ribombou lá fora, o que fez o rapaz correr para evitar a tempestade que com certeza iria cair. Se era só o primeiro trovão – todo aquele acidente, ou incidente que resultara em sua mão sangrando podia tê-lo feito ignorar outros sinais de temporal lá fora – dava tempo para chegar em sua própria casa, mas ele precisava ser rápido.

Mal atravessou a soleira da porta e percebeu como havia ficado escuro: as nuvens negras tomavam o céu, praticamente esmagavam o horizonte: por um minuto André ficou espantado, era como se o céu fosse … pesado. Como era possível uma sensação de peso tão forte lhe atingir os olhos??

Talvez estivesse ficando doido, que nem a Belin: ele sabia que ela era meio esquisita, embora fizesse muito o seu tipo, uma gatinha que ainda se mostrava manhosa, mas aquilo havia sido meio exagerado. André voltou a correr mas a tempestade lhe alcançou antes de chegar em casa. O sangue que lhe escorria pela mão se misturava com a água que caía do céu, numa fúria repentina por mais esperada que fosse.

Mas estava perto. Chegou diante da casa de sua mãe, e pouco antes de entrar tomou um susto terrível que o fez estacar no meio da chuva: o trovão rugiu nos céus, e um raio faiscante caiu em cima da casa. Um clarão veio do interior da casa, e apesar do perigo André não chegou a hesitar muito: sua mãe devia estar lá dentro!

Entrou esbaforido, olhando para todos os lados: aparentemente, o para-raios havia contido a força do relâmpago. Mas a casa estava às escuras, ou quase: a eletricidade fora cortada pela tempestade, e várias velas estavam espalhadas pela casa.

… Porquê?, se perguntou André? Ela já estava esperando isto?...

Uma bela e madura mulher acariciava a tela da televisão, seus cabelos muito negros, sem um só fio branco que denunciasse sua idade e fragilidade emocional, se mexiam ao sabor do vento que entrava pela janela escancarada.

André entrou rápido e fechou a janela:

– Mãe? O que é isso tudo? Porque deixou essa janela aberta?

– A previsão do tempo, meu filho André... a previsão!!! – ela respondeu numa voz numa tonalidade um pouco acima do normal, e virou-se para o filho (estava até então de costas). Seus olhos estavam um pouco lacrimejantes, ou era respingo da chuva que vinha lá fora? Ela se aproximou a passos firmes, um tanto diferente do jeito vacilante da Andressa, sua mãe, que ele conhecia, e segurou o pulso do rapaz, dizendo naquela voz meio alterada:

– Oh, meu filho André. Quem fez isso com você?!?

Ao toque de sua mãe, que lhe deveria ser muito familiar, André levou um pequeno... choque, como duas pessoas desconhecidas que se tocam sem querer pelo cotovelo, no escuro do cinema. A ferida que até então estava limpa pela chuva voltou a sangrar, desta vez mais profusamente que antes.

– Você quer que eu cuide disso, meu filho André? Ou quer que eu cuide de quem fez isso com você?... – Andressa tomou do braço de André e o aproximou dos próprios lábios, num gesto inesperado. O rapaz teve a impressão de que ela ia esticar a língua da boca já entreaberta e lamber o ferimento que sangrava, mas antes outro relâmpago lá fora iluminou a sala em penumbra e André pôde vislumbrar um fugaz brilho púrpura nos olhos de sua mãe.

Surpreso, André puxou o braço quase que com ferocidade, e por um instante terrível percebeu como a força das mãos de Andressa era bem maior do que costumava ser, quase ao mesmo tempo em que percebeu que as dezessete chamas das velas espalhadas pelo cômodo não haviam apagado, ou sequer dançado, com a rajada de vento que (não tinha fechado a janela??) penetrou na sala.

Que é que estava acontecendo?


Belin sentiu seu corpo estremecer e parecia pairar no ar, não via nem ouvia nada, um profundo silêncio tomava conta de tudo. De repente um estrondo e Belin viu-se sentada numa cadeira na mansão em Raven Lake.

Olhou ao redor e nada viu, à sua frente o imenso espelho oval estava descoberto, mas não refletia absolutamente nada, apenas um escuro espectral em seu interior, parecia um poço sem fundo.

Tentou se levantar, mas não conseguia se mexer.

– Olá...tem alguém aí? – Belin gritava em vão.

De repente um ruído parecido com o de trovões veio de dentro do espelho, estava cada vez mais perto, o coração da garota começou a acelerar, sentia medo e excitação, sempre quis entrar naquele espelho para saber aonde daria, mas agora estava prestes a ver o que sairia de dentro dele.

As cortinas do aposento começaram a balançar e tudo ao redor parecia em movimento, o som se aproximava e com ele passos pesados. Belin não conseguiu continuar olhando e fechou os olhos apertando os dedos contra o braço da cadeira.

Sentiu quando uma mão firme pousou sobre seu ombro, um arrepio percorreu todo seu corpo e fez com que sua respiração ficasse pesada. Não quis se mexer, teve medo...pela primeira vez teve medo...

– Belin … – com voz firme o vulto negro sussurrou próximo à orelha da garota. Ela sentiu aquele hálito quente percorrer seu pescoço e entrar em suas roupas. Afrouxou os dedos tirando uma das mãos do braço da cadeira e pousando-a sobre a mão que estava sob seu ombro, aquele toque parecia feito de energia, uma densa energia que fez o corpo da garota estremecer. Criou coragem e abriu os olhos, ao olhar para o espelho via-se refletida nele, mas nada mais que isso, embora ainda sentisse a mão que segurava. Levantou-se de um salto e virou-se para trás, seus olhos brilharam quando o viu, não pôde descrever a sensação, foi algo tão forte e irreal que não acreditava nos sentimentos que estavam sendo despertos um a um.

Aproximou-se, sabia o nome daquele ser tão lindo que via a sua frente.

– Belial … – seus olhos brilharam uma luz púrpura enquanto tocava o corpo daquele homem que se assemelhava a um demônio que a fascinava de um modo quase doentio.
Abraçou-o enquanto inspirava profundamente, aquele cheiro...era como voltar para casa depois de longos anos viajando por diferentes mundos. Olhou para aquele rosto tão familiar, acariciou-o e sem mais esperar beijou seus lábios.

Tudo ao redor parecia não mais existir, havia um profundo silêncio naquele momento.
As mãos de Belial percorreram o corpo de Belin, explorando-o minuciosamente.
Tiraram suas roupas sem pararem de se beijar, o desejo que se apossou deles naquele momento era tão forte que um precisava desesperadamente do outro.

Seus corpos nus começaram a se refletir naquele espelho negro, já não estavam mais no quarto, estavam dentro do espelho oval, na profunda escuridão. Belial beijava o pescoço da garota, suas mãos tocavam aqueles seios firmes que pediam, enrijecidos, por sua boca. Entregavam-se um ao outro de forma completa e intensa, uma deliciosa sensação de euforia e êxtase, a escuridão estava impregnada de desejos.

Belial deitou a garota no chão e penetrou Belin de forma abrupta, a garota foi levada ao prazer extremo, seus gemidos ecoavam pela escuridão, estava fascinada por aquele Ser demoníaco que a possuía por completo.

Seus corpos unidos eram como mil sóis aquecendo o mundo, uma deliciosa fragrância de sândalo impregnava o ar, eram Dois e eram Um...

Belial prendeu os braços de Belin para cima e continuava mexendo seu corpo num vai e vem frenético, Belin colocou as pernas ao redor da cintura dele e apertou, sentia que poderia morrer naquele momento, nada mais importava, só estar com ele.

Num urro assemelhado à trovões Belial chegou ao seu êxtase no mesmo instante em que Belin também chegou, foi uma explosão de sensações e gozos.

Belin sentiu que não conseguiria mais manter a lucidez e antes que seus olhos se fechassem acariciou uma ultima vez o rosto daquele Ser a quem tanto amava, sim, era este o sentimento, amor...

Quando Belin abriu novamente os olhos estava em sua cama, as cortinas balançavam ferozmente enquanto uma tempestade funesta desabava lá fora
“E caiu a chuva, e transbordaram os rios, e sopraram os ventos, e se precipitaram sobre aquela casa … e ela caiu … e foi grande a sua ruína.”

A frase veio como um clarão sobre a mente de André, e um calafrio correu por sua espinha como um relâmpago escorrega ligeiro pelo céu. Eram palavras do Sermão da Montanha – mas porque lhe viria a cabeça uma citação bíblica, se ele não era crente nem nada, aliás, nem ele nem sua mãe eram de fato religiosos. E, sendo assim, porque as velas espalhadas pela casa daquele jeito … daquele jeito ritualístico, era a única palavra plausível?

O padrão das dezessete (eram dezessete, exatamente dezessete, e ele contara as velas num só relance, uma percepção quase dolorosa) velas parecia deixá-lo tonto. A mão daquela que um dia fora sua mãe, mas não era mais (outra percepção ainda mais dolorosa: esta lhe marretava a base do crânio e ardia o pulso a sangrar), ainda segurava-lhe o pulso. A luz púrpura nos olhos de … não era mais Eleonora… olhou diretamente para André e ela sorriu, um ar que misturava constrangimento e avidez:

– Mas o que é isso, meu filho André? Me deixe aplacar seu sofrimento … e que aqueles que te feriram assim tenham a dor multiplicada por dez – este modo de falar nunca fora do feitio de Eleonora. Se não estava já em pânico, André teve total certeza de que era prisioneiro absoluto do medo.

- Pare. Pare. Não sei quem é você, o que é você, mas saia de dentro de minha mãe!! – a frase lhe soou ridícula, um clichê, logo após tê-la gritado. Deve ter soado ridículo também aos olhos da invasora, porque esta sorriu de jeito ainda mais perturbador, quase anormal, como se estivesse olhando para um bichinho ou uma criança ignorante, e lhe respondeu:

- Seu bobo. Você é meu filho André, e eu sou sua mãe. Serei sua mãe para todo o sempre a partir de agora, e este meu corpo o prova. Não me olhas e vê tua mãe …? Não foram estes os seios que te amamentaram? … – e puxou a mão de André direto para os seios que eram visíveis em parte pela blusa um tanto desabotoada, em parte pela água da chuva que lhe caíra em cima do tecido branco. O calor do corpo da mãe se misturava a um calor inumano que vinha da entidade que a possuía, e que contrastava muito com a frieza da mão que lhe segurava o pulso. Era como se um coração em chamas pulsasse dentro daquele peito … não, dentro daqueles seios. Era como se os dois seios estivessem em febre, um fogo milímetros abaixo da superfície da pele.

E como costumava fazer o fogo, aquele fogo seduzia. Assim como as labaredas do fogo podem hipnotizar quem as contempla, o calor do fogo também pode excitar e escravizar, e definitivamente era esse o caso do calor que passava daqueles seios duros (André nunca sentira antes os seios da mãe tão duros, não era aquilo que sentia nas vezes que a abraçava) para a mão ferida de André. Atordoado, ele sentiu a sua … nova mãe … soltar-lhe o pulso. E sua mão continuou a tocar-lhe os seios. Ele não se atreveu a tirar, inclusive porque a ferida no pulso começou a cicatrizar, cortesia e bênção daquele calor que emanava dos seios dela.

E, como seria inevitável, a outra mão agarrou-lhe os seios e André voluntariamente beijou os lábios de sua nova mãe. Havia perdido toda consciência do que achava que seria moral, do que seria apropriado – só havia o impulso, a urgência, a necessidade. A comichão que lhe passeava pelas veias. Esqueceu o ferimento que não mais existia. Esqueceu das trovoadas lá fora, do vento que soprava sobre os dois. Esqueceu das dezessete velas... Esqueceu de Belin.

Mas isto, aquela entidade que invadira o corpo de Eleonora não ia deixar. Aquela entidade sem nome, até agora. Seu nome não era Eleonora, e ela tirou seu novo nome da mente de André, o nome vinha borbulhando pelo sangue que ela sugava dos lábios do rapaz. André soube que era escravo, talvez para sempre, de Astarte.

Astarte interrompeu o beijo profundo e sangrento, lambeu devagar os lábios em meio a um gemido de satisfação – eram mais carnudos do que os lábios de sua mãe Andressa costumava ser, mas André já estava esquecendo de Eleonora – e disse:

-- Essa Belin. Onde está ela? Não foi ela que sangrou teu lindo pulso, coisa que só eu poderia ter feito? Ahhh … não me responda. Só me leve até ela. Não sei porquê, mas desconfio que ela não é tão fraca como você … e deve estar com aquele que vim buscar, o fugitivo. Não que nada disso faça sentido para você, meu lindo fraco – André fitava os olhos púrpuras de Astarte, sem pestanejar e sem responder, porque ela havia mandado não responder – você gosta, não é? Delicia-se em ser fraco enquanto agarra meus seios, não é? … Certo. Você vai ter ainda muito tempo para desfrutar de sua fraqueza junto a este meu novo corpo, mas agora vai sentir prazer é em me obedecer: vamos, me leve até ela e àquele canalha ladrão que eu vislumbrei se escondendo em suas memórias. Você pode ser quase cego, mas eu, não …

André soltou os seios de Astarte e saiu andando, passou pela porta e enfrentou a chuva. Os raios e relâmpagos caíam fortes e o temporal parecia cada vez pior, mas ele e sua nova mãe andaram firmes, como se marchando, na direção da casa de Belin. E é claro, para todos aos outros da cidadezinha, escondidos com medo da tempestade, nada de anormal estava acontecendo.

Nada … Só a tempestade

Belin levantou-se de um salto, correu até a janela para fechá-la e viu quando André retornava acompanhado … da mãe?

Não acreditou em seus olhos quando a viu, Belin a via, da forma exata como era, seu coração disparou enquanto sussurrava: A Mãe …

Correu pelas escadas quase voando, e fugiu pela porta da cozinha, correu descalça pela relva gélida enquanto os raios cortavam os céus violentamente, mal conseguia enxergar por causa da chuva forte, correu o máximo que conseguiu e adentrou a escura e úmida floresta.

Dentro da casa Belial esperava pela Mãe com um sorriso malicioso nos lábios, do alto da escada olhava firme na direção da porta da frente, ansioso pelo esperado encontro.

Belin tinha os pés feridos, descalça corria sem parar, já nem sabia o porquê da fuga, não conseguia pensar direito, atravessou todo o bosque e parou à beira de um enorme precipício, ficou ali, como uma estátua olhando o nada, como se esperasse alguma ordem, a chuva lavava seu corpo e os trovões que faziam a terra estremecer não lhe causavam um só suspiro.

Seus olhos … os olhos de Belial … Belin e Belial, ela via através de seus olhos, ele via através dos olhos dela, ela ouvia e sentia através de Belial, ele sentia a chuva gelada na pele de Belin, podia ver o precipício podia sentir o cheiro da terra molhada, eles eram Um.

Cada passo daquela dança milimetricamente coreografada, a dança da Realidade movendo-se contra o Vazio. A dança de Belin, Belial, Astarte e até do pobre André, seus movimentos descritos neste conto, eram uma celebração ritual inconsciente, forçosa, obrigatória, que imitava os padrões rítmicos dessa dança primal da Realidade fluindo contra o pano de fundo do Vazio.

Belial sabia algo que Astarte não sabia. Esse algo – uma coisa tão indescritivelmente complexa que se nós, narrador e narradora deste conto, fôssemos passar adiante a vocês leitores, simplesmente os fariam passar o resto de suas vidas mortais lendo esta tortuosa narrativa – era aquilo que Belial roubara, e era aquilo que Astarte queria de volta. Se Belial sabia, Astarte não teria como saber, apenas porque Belial roubara o … Mistério, é melhor chamar esse algo por um nome menos indefinido e que não roube uma lemniscata de palavras nesta história apenas para ser descrito. Se roubara, o dono original não poderia ter mais acesso.

Parece algo tolo, não muito aplicável a um Mistério, algo que pode ser passado adiante sem que quem o pronuncie não o perca, mas era essa a natureza tanto do Mistério quanto das duas entidades que eram Astarte e Belial. Só posso talvez adiantar que esse Mistério tem algo a ver com a dança primal vivida por eles dois, André e Belin. E Belin agora ouvia a música que impulsionava essa dança: a tempestade que trovejava enquanto ela contemplava o precipício à sua frente.

E quando o precipício era assim observado por Belin assombrada e petrificada, André já não mais existia como o conhecemos no começo deste conto. E enquanto Belin corria desesperada pelo bosque, sem compreender a razão de tudo aquilo, uma armadilha era disparada, um corpo era tomado.

A arrogância muitas vezes é apenas o primeiro acorde de um réquiem, um prenúncio de queda: e foi isso que aconteceu com Astarte. Uma série de pequenas decisões erradas, movidas pela arrogância, levou A Mãe a ostentar seu brinquedinho André pelas ruas da cidade, a entrar na casa de Belin com o “filho” a seu lado. A porta estava destrancada, mas mesmo se não estivesse, é possível que Astarte a houvesse derrubado com a força estranha de seus braços, ou mesmo que Belial educadamente tivesse aberto a porta. Ele a esperava, e assim que A Mãe abriu a porta, uma sombra de olhos azuis deslizou ziguezagueante pela escada, sua forma tinha volume e peso devido ao contato com Belin, aquela comunhão fatal; mas também tinha rapidez e poder tremendos, devido ao Mistério roubado.

Outra coisa que Astarte, a Mãe, não sabia, além do Mistério e de seus próprios pequenos erros: o encaixe da comunhão oferecida por Belin com o próprio Mistério que um dia havia lhe pertencido em outro mundo, em outra época. Encaixe que tornou possível a Belial fazer o inesperado: a sombra quase humana, com o brilho azul demoníaco no lugar dos olhos, desceu como um relâmpago do topo da escada para a porta da frente, e garras cortaram a própria Realidade na frente de Astarte, sem tempo para que esta reagisse (já ia pronunciar seu grito de triunfo, era uma pena), tragando a ambos, Belial e Astarte, o Rebelde Sombrio e a Mãe Sombria, para um lugar que estava perigosamente próximo do Vazio: Raven Lake, além dos portais do paralelo.

O que aconteceu lá?

Creio que poderíamos dizer que o que lá aconteceu foi tão inconcebível, tão complexo e indescritível, que ocuparia talvez mais tamanho de texto que o próprio Mistério roubado (pode muito bem ser verdade!). Vocês poderiam também pensar que tivemos simplesmente preguiça de descrever, se quiserem. São livres. Mas o que eu acontece é que no fim das contas o que aconteceu aqui, nesta Realidade, foi mais interessante.

Belin enxergou a forma que um dia havia sido Eleonora, mãe de André, se dissolver nas correntes de energia do paralelo, em Raven Lake, ao mesmo tempo em que seus olhos carnais viam o precipício. Enxergou Belial retirar um fiapo de energia densa da forma-cadáver, e este terminar sua dissolução de vez. O demônio (podemos mesmo chamá-lo assim?) olhou para a frente, e para Belin era como olhar para um espelho, porque Belial a estava admirando com algum sentido desconhecido, uma visão além da visão. O choque, a retroalimentação de sensações que ia além dos cinco sentidos, fez a garota dar cinco passos para trás, veio o medo de cair no abismo.

E no espaço que ela desocupou, o ar tremeu e se distorceu naquela semi-obscuridade (já era noite?...), e logo à beira do abismo, sorrindo, apareceu a figura de André.

Surpresa, e sem questionar porque a ligação entre ela e Belial havia sido cortada, ela gritou:

– André!!! Que está fazendo aqui? Eu não esperava …

– Nem eu esperava, meu amor – respondeu a voz rouca, quente e familiar que Belin sabia não pertencer a André, e Belin foi abraçada com paixão e vigor enquanto a fagulha que Belial roubara de Astarte passava para Belin e nela acendia uma fagulha divina, um poder tremendo, um prazer e uma dor numa só sensação, uma onda desconhecida e ao mesmo tempo tudo que Belin precisava – eu sou o inesperado. E agora, NÓS somos o inesperado …

Os brilhos de dois pares de olhos dominaram então a noite: dois olhos azuis e dois olhos púrpura

FIM